
Foto: Gustavo Moreno/STF
A nota oficial assinada pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Luís Roberto Barroso, em resposta à reportagem da revista The Economist, apresenta diversos pontos que podem ser contestados com base em documentos públicos, declarações oficiais e registros da imprensa. A publicação britânica criticou a concentração de poder no STF, especialmente em relação à atuação do ministro Alexandre de Moraes, o que motivou a réplica de Barroso, divulgada no site da Corte no sábado (19).
Confira os principais argumentos:
Um dos pontos centrais da resposta de Barroso diz respeito à suspensão da rede X no Brasil. Segundo ele, a plataforma foi bloqueada porque “havia retirado os seus representantes legais do país”. No entanto, documentos revelados pela própria X indicam que os representantes saíram do país após sofrerem ameaças de prisão, diante de ordens judiciais ilegais. A suspensão ocorreu após o início da crise com o STF, e não antes dela, como a sequência de tuítes abaixo comprova:
Barroso também afirma que "todas as decisões de remoção de conteúdo foram devidamente motivadas" e relacionadas a crimes ou tentativas de golpe. No entanto, o inquérito das fake news — base para essas decisões — segue sob sigilo desde 2019. Além disso, diversos usuários tiveram contas suspensas sem intimação prévia nem acesso à fundamentação legal da medida, como relatado por parlamentares, influenciadores e jornalistas afetados. Em abril de 2024, Elon Musk acusou Alexandre de Moraes de censura e publicou ordens judiciais que impunham bloqueios imediatos sem direito de defesa.
Barroso também negou ter dito que a Corte "derrotou Bolsonaro", afirmando que a vitória foi dos eleitores. Contudo, em um vídeo gravado em 2023 durante uma palestra no Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), Barroso afirmou: “Nós derrotamos o bolsonarismo.” A frase foi registrada em áudio e vídeo, amplamente divulgada pela imprensa e gerou grande repercussão.
Em sua nota, Barroso menciona uma pesquisa Datafolha, afirmando que a "maioria confia no Tribunal", somando 24% que "confiam muito" e 35% que "confiam um pouco". Contudo, é falacioso tratar a resposta "confio um pouco" como sinônimo de confiança. Em pesquisa divulgada em março de 2024, apenas 29% dos entrevistados aprovaram o trabalho do STF, enquanto 28% o reprovaram e 40% o consideraram "regular". A pesquisa foi realizada entre 19 e 20 de março de 2024, com uma amostra de 2.002 entrevistas presenciais em 147 cidades.
Além disso, pesquisa da Futura Inteligência, divulgada recentemente, mostrou que 52,6% dos brasileiros veem o STF de forma negativa. Barroso, ao comentar o resultado, afirmou que “a importância de um tribunal e de um juiz não pode ser aferida em pesquisas de opinião pública.”
Barroso afirmou que "o enfoque dado na matéria corresponde mais à narrativa dos que tentaram o golpe de Estado". No entanto, críticas semelhantes às feitas pela The Economist são frequentes em diversos jornais brasileiros e estrangeiros, incluindo publicações de tendências centristas ou até esquerdistas. Além disso, diversos juristas, que condenaram veementemente o atentado de 8 de janeiro, também criticam os abusos recentes do Supremo, especialmente as ações de Moraes.
Barroso afirmou que os responsáveis pelos atentados de 8 de janeiro "estão sendo processados criminalmente, com o devido processo legal". Contudo, a falta de acesso integral aos autos do processo compromete gravemente o devido processo legal. O presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Beto Simonetti, afirmou em abril que "a impossibilidade de acesso integral às trocas de mensagens e aos arquivos documentados compromete a atuação da defesa, restringindo sua capacidade de identificar informações relevantes e elaborar questionamentos estratégicos a acusados e testemunhas".
Nota de Barroso na íntegra
Acerca da matéria “Brazil’s Supreme Court is on trial” [da revista The Economist], venho esclarecer alguns pontos. A reportagem narra algumas das ameaças sofridas pela democracia no Brasil, embora não todas. Entre elas se incluem a invasão da sede dos três Poderes da República por uma multidão insuflada por extremistas; acampamentos de milhares de pessoas em portas de quartéis pedindo a deposição do presidente eleito; tentativa de atentado terrorista a bomba no aeroporto de Brasília; e tentativa de explosão de uma bomba no Supremo Tribunal Federal. E, claro, uma alegada tentativa de golpe, com plano de assassinato do presidente, do vice-presidente e de um ministro do tribunal. Os responsáveis estão sendo processados criminalmente, com o devido processo legal, como reconhece a matéria. Foi necessário um tribunal independente e atuante para evitar o colapso das instituições, como ocorreu em vários países do mundo, do leste Europeu à América Latina.
A pesquisa DataFolha mais recente revela que, somados os que confiam muito (24%) e os que confiam um pouco (35%) no STF, a maioria confia no Tribunal. Não existe uma crise de confiança. As chamadas decisões individuais ou “monocráticas” foram posteriormente ratificadas pelos demais juízes. O X (ex-Twitter) foi suspenso do Brasil por haver retirado os seus representantes legais do país, e não em razão de qualquer conteúdo publicado. E assim que voltou a ter representante, foi restabelecido. Todas as decisões de remoção de conteúdo foram devidamente motivadas e envolviam crime, instigação à prática de crime ou preparação de golpe de Estado. O presidente do Tribunal nunca disse que a corte “defeated Bolsonaro”. Foram os eleitores.
Um outro ponto: a regra de procedimento penal em vigor no Tribunal é a de que ações penais contra altas autoridades seja julgada por uma das duas turmas do tribunal, e não pelo plenário. Mudar isso é que seria excepcional. Quase todos os ministros do tribunal já foram ofendidos pelo ex-presidente. Se a suposta animosidade em relação a ele pudesse ser um critério de suspeição, bastaria o réu atacar o tribunal para não poder ser julgado. O ministro Alexandre de Moraes cumpre com empenho e coragem o seu papel, com o apoio do tribunal, e não individualmente.
O enfoque dado na matéria corresponde mais à narrativa dos que tentaram o golpe de Estado do que ao fato real de que o Brasil vive uma democracia plena, com Estado de direito, freios e contrapesos e respeito aos direitos fundamentais.

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