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O Vaticano anunciou na madrugada desta segunda-feira (21), às 5h35 no horário de Brasília, a morte do papa Francisco, aos 88 anos. O comunicado oficial foi feito pelo cardeal camerlengo Kevin Farrell, que informou que o pontífice faleceu às 7h35 (horário local), em sua residência no Vaticano.
“Às 7h35 desta manhã, o Bispo de Roma, Francisco, retornou à casa do Pai. Toda a sua vida foi dedicada ao serviço do Senhor e de Sua Igreja. Ele nos ensinou a viver os valores do Evangelho com fidelidade, coragem e amor universal, especialmente em favor dos mais pobres e marginalizados”, declarou Farrell. “Com imensa gratidão por seu exemplo como verdadeiro discípulo do Senhor Jesus, recomendamos a alma do Papa Francisco ao infinito amor misericordioso do Deus Trino.”
Francisco, primeiro papa latino-americano e jesuíta da história, enfrentava sérios problemas respiratórios desde o início do ano. Após ser internado por mais de 40 dias para o tratamento de uma pneumonia bilateral, teve alta no final de março. Chegou a participar das celebrações pascais e a circular na Praça de São Pedro a bordo do papamóvel. No entanto, no último domingo, seu estado de saúde voltou a ser classificado como crítico.
A piora não surpreendeu os médicos. O papa já convivia com limitações pulmonares desde a juventude, quando, aos 21 anos, perdeu parte do pulmão direito após uma infecção grave. Ainda assim, durante os 12 anos de pontificado, permaneceu ativo e presente — e fiel ao seu pedido recorrente: “Rezem por mim”.
Combate aos abusos
O enfrentamento das denúncias de abusos sexuais dentro da Igreja Católica foi uma das questões centrais do pontificado de Francisco. Dando continuidade ao trabalho de seu antecessor, ele fez da reforma do código penal do Vaticano uma de suas primeiras prioridades. Em julho de 2013, um endurecimento nas penas contra diferentes formas de abuso sexual foi implantado, estabelecendo um compromisso formal com a erradicação desse mal.
A luta contra os abusos se tornou um pilar inegociável durante seu papado. Em fevereiro de 2019, Francisco tomou a decisão histórica de destituir o ex-cardeal Theodore McCarrick, acusado de abusar de menores e adultos. Ainda no mesmo mês, o pontífice convocou uma cúpula internacional sobre o tema, onde deixou claro que a Igreja não deveria jamais encobrir ou minimizar os abusos. Em sua mensagem, ele afirmou: "Nenhum abuso deve ser encoberto ou subestimado, pois isso favorece a propagação do mal e eleva o nível do escândalo", destacando a gravidade da questão em suas dimensões espirituais e humanas.
Em 2023, o Papa Francisco reforçou seu compromisso com a transparência e a responsabilidade ao publicar uma atualização do motu proprio Vos estis lux mundi. A principal novidade foi a ampliação das responsabilidades dos leigos, especialmente aqueles que têm vínculos com associações e movimentos dentro da Igreja. Esta atualização visava garantir que todos, sem exceção, estivessem comprometidos com a prevenção e combate aos abusos, criando um sistema de denúncias mais acessível, que obrigava as dioceses a revisar as denúncias em até 90 dias. No entanto, a eficácia dessa reforma ainda é difícil de medir, pois o nível de transparência das investigações permanece desigual de país para país.
Ambientalismo
Desde o início de seu pontificado, Francisco demonstrou uma preocupação profunda com as questões ambientais, uma inquietação que já era visível em sua missa inaugural. "Respeitar o meio ambiente e todas as criaturas de Deus" foram palavras que ecoaram de forma clara e decisiva. Sua inspiração veio de São Francisco de Assis, cuja visão da natureza como obra divina conduziu o Papa a lançar a encíclica Laudato si'. A obra tratou da necessidade urgente de adotar uma postura mais responsável em relação ao nosso planeta, com foco na preservação do meio ambiente, no combate ao consumismo desenfreado e na promoção de um modelo econômico que coloque a pessoa humana e a justiça social no centro.
Embora a questão ambiental seja frequentemente associada a movimentos progressistas, a Igreja sempre teve uma preocupação com o bem-estar do planeta, embora de maneira menos explícita até o século XX. Laudato si' foi um marco, pois não só se inseriu no contexto das mudanças climáticas, como também criticou comportamentos como o aborto e a pesquisa com embriões humanos, defendendo um equilíbrio entre o cuidado com a criação e o respeito pela dignidade humana. Em 2023, o Papa continuou essa linha de ação com a exortação apostólica Laudate Deum, uma análise mais detalhada sobre as mudanças climáticas e seus impactos devastadores.
Em Laudate Deum, Francisco, mais uma vez, alertou sobre os danos causados pelas ações humanas ao meio ambiente e clamou por mudanças de hábitos, não apenas pessoais, mas também políticas globais que envolvam todos os setores da sociedade. Ele descreveu as mudanças climáticas como um "problema social global", intimamente ligado à dignidade da vida humana e à justiça social, convocando todos a um "caminho do cuidado mútuo" e à transformação das políticas de consumo.
Sinodalidade e sínodos
Uma das grandes marcas do pontificado de Francisco foi a promoção da sinodalidade, ou seja, a ideia de uma Igreja que caminha junta, leigos e clérigos, em um espírito de unidade e diálogo. Francisco frequentemente falou sobre a necessidade de uma descentralização nas decisões dentro da Igreja, algo que ele acreditava ser essencial para um verdadeiro processo de reforma. Para isso, ele utilizou os sínodos, encontros de bispos e outros membros da Igreja, como ferramentas para discutir e decidir sobre questões importantes.
O Sínodo dos Bispos, uma instituição criada por Paulo VI em 1965, foi a plataforma escolhida por Francisco para estimular a participação de todos os membros da Igreja, incluindo os leigos, nas discussões. Francisco via o sínodo como uma maneira de aproximar os fiéis e fortalecer o vínculo com a hierarquia e o Papa. “A palavra ‘sínodo’ contém tudo o que é necessário para compreender: ‘caminhar juntos’”, disse o Papa, ressaltando a importância da participação e da escuta mútua.
Durante seu papado, dois sínodos se destacaram por sua relevância e pelo impacto que causaram. O primeiro foi o Sínodo Extraordinário sobre a Família, que teve como foco a indissolubilidade do casamento, a acolhida de homossexuais e a possibilidade de oferecer a comunhão para casais em segunda união. Embora o sínodo tenha gerado grande expectativa, especialmente entre os setores progressistas, a exortação apostólica Amoris Laetitia, resultado do sínodo, não alterou de forma significativa a doutrina da Igreja sobre o matrimônio, mas introduziu uma postura mais pastoral e misericordiosa sobre certos casos.
O segundo sínodo de destaque foi o Sínodo da Amazônia, que, em 2019, levantou questões sobre o diaconato feminino e a possibilidade de ordenação de homens casados para responder às necessidades pastorais da região. Embora tenha gerado uma série de discussões intensas, o documento final, Querida Amazônia, reafirmou a postura tradicional da Igreja sobre o celibato e não abordou diretamente a ordenação de mulheres ou homens casados. O Papa, no entanto, reconheceu o importante papel das mulheres na evangelização da região e condenou os crimes ambientais que afligem a Amazônia, defendendo uma maior proteção dos povos nativos e da floresta.
Esse contínuo processo de diálogo e reforma, tanto dentro da Igreja como com a sociedade em geral, foi uma das maiores heranças de Francisco.
Pandemia e Guerra na Ucrânia
O papa Francisco também se viu diante de momentos de grande impacto geopolítico durante seu pontificado. Em 2020, com o surgimento da pandemia de Covid-19, a Itália e muitos outros países impuseram severos lockdowns como medida de contenção. Durante esse período, o Papa realizou sozinho a benção Urbi et Orbi, normalmente acompanhada por milhares de fiéis na Praça de São Pedro. Em uma noite escura e chuvosa, com o auxílio de poucos membros do Vaticano, Francisco pediu orações pela humanidade que sofria com a doença e as restrições à liberdade. Ele rezou diante do ícone Maria Salus Populi Romani, atribuído a São Lucas.
Em sua mensagem de esperança, o Papa disse: “Com a tempestade, caiu a maquiagem dos estereótipos com que mascaramos o nosso eu sempre preocupado com a própria imagem; e ficou descoberto, uma vez mais, aquela (abençoada) pertença comum a que não nos podemos subtrair: a pertença como irmãos.” Para ele, a oração e o serviço silencioso eram "as armas vencedoras" diante do sofrimento global.
Outro momento significativo de seu pontificado foi a consagração da Rússia e da Ucrânia ao Imaculado Coração de Maria, um gesto realizado junto aos bispos do mundo inteiro. O Papa pediu pela intercessão de Maria pela paz, menos de um mês após o início da guerra entre os dois países. Em uma carta aos bispos, Francisco explicou que a Igreja foi "fortemente chamada a interceder junto do Príncipe da Paz", buscando consolo para aqueles que sofriam as consequências do conflito.
Proximidade com a Paróquia em Gaza
Em outubro de 2023, após o massacre do Hamas em Israel, o Papa Francisco expressou sua preocupação com o sofrimento no Oriente Médio, pedindo “que parem com os ataques e com as armas”. Ele clamou por um cessar-fogo imediato em Gaza, onde se preocupava com os reféns e civis. A cada novo desdobramento da crise, o Papa reiterava sua condenação ao uso excessivo da força. Em seu livro lançado para o Jubileu de 2025, ele observou que o que ocorria em Gaza tinha as características de um genocídio, e que deveria ser investigado por organismos internacionais.
Francisco sempre manteve uma ligação constante com a Paróquia da Sagrada Família em Gaza, realizando telefonemas diários para manter o contato com os cerca de 600 fiéis locais, até mesmo durante sua internação hospitalar. Durante uma audiência geral, ele compartilhou um relato com os fiéis, dizendo que os habitantes de Gaza estavam “contentes” por ter, momentaneamente, acesso a uma refeição melhor.
Algumas controvérsias do pontificado
O Papa Francisco, com seu estilo de liderança, também gerou controvérsias. Seu apoio explícito a figuras da esquerda latino-americana, como Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, dividiu opiniões. Em uma entrevista, Francisco defendeu a inocência de Lula, argumentando que ele foi condenado sem provas, e exaltou o impeachment de Dilma como uma ação sem “culpas”.
Por outro lado, o Papa também foi firme em sua crítica aos regimes autoritários, condenando duramente a ditadura de Daniel Ortega na Nicarágua e expressando apoio à luta pela democracia na Venezuela. Suas declarações sobre a Venezuela, especialmente sobre o regime de Nicolás Maduro, frequentemente se opuseram às políticas de figuras de esquerda, pedindo diálogo e paz como soluções.
O Papa também entrou em confronto com setores conservadores da Igreja. Em 2021, ao revogar as permissões para celebração da Missa Tridentina, através do Motu Proprio Traditionis Custodes, ele enfatizou que a unidade da Igreja precisava prevalecer, revisando as disposições concedidas a sacerdotes para celebrarem a Missa segundo o rito pré-Vaticano II.
Esse contraste entre Francisco e seu antecessor, o Papa Bento XVI, foi uma constante em seu pontificado. A presença simbólica de "dois papas" refletiu a tensão e a continuidade de ideias dentro da Igreja, especialmente após a morte de Bento XVI, quando Francisco presidiu os ritos fúnebres.
Legado e saúde
Ao longo de seu pontificado, Francisco se envolveu ativamente com as questões sociais, políticas e morais, tornando-se uma figura importante no diálogo inter-religioso e nos problemas contemporâneos. Sua atuação foi marcada pela abertura ao ecumenismo, com encontros históricos, como o realizado com o Patriarca Cirilo da Igreja Ortodoxa Russa em 2016. Ele também se envolveu com a Reforma Protestante, como evidenciado por sua visita à Suécia em 2017.
Ao final de sua vida, com 88 anos, Francisco continuava a desempenhar um papel ativo, mesmo com problemas de saúde e limitados movimentos físicos. No entanto, sua liderança não se deixou abalar. Com 47 viagens apostólicas internacionais, ele percorreu mais de 60 países e continuou sendo uma figura central no cenário global, sempre defendendo a paz, a unidade e o cuidado com os mais necessitados. Sua influencia no clero será sentida por muitos anos, dado que ele nomeou 149 dos 252 cardeais eleitores, moldando o futuro da Igreja Católica.

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