
Foto: Receita Federal/Divulgação
O crime organizado continua a infiltrar-se em setores formais da economia, causando prejuízos bilionários ao país. Uma nota técnica da Confederação Nacional da Indústria (CNI) revelou que, em 2022, facções criminosas movimentaram R$ 453,5 bilhões em 16 setores econômicos, valor superior ao Produto Interno Bruto (PIB) de Santa Catarina. O impacto também se traduz em perda de 370 mil empregos diretos e R$ 136 bilhões não arrecadados em impostos, demonstrando o efeito sistêmico das ilegalidades sobre a economia brasileira.
A atuação das facções não se limita à violência: empresas de diversos ramos, de motéis a lojas de franquias, são usadas para lavagem de dinheiro, capturando receitas que deveriam fortalecer o mercado legal e gerar empregos. Segundo Leandro Piquet, coordenador da Escola de Segurança Multidimensional (Esem) da USP, “os grupos criminosos roubam participação de mercado de empresas formais operando no contrabando e na falsificação, especialmente em setores como tabaco e nicotina, prejudicando empregos e arrecadação legal.”
O estudo destaca ainda que 40% do mercado nacional de cigarros é ilegal, gerando prejuízo fiscal de R$ 94,4 bilhões em 11 anos. O faturamento ilícito alimenta redes de corrupção e movimenta mercados paralelos, incluindo o imobiliário e de luxo, nacional e internacionalmente.
A nota da CNI elogia operações recentes, como a Spare, que mirou o núcleo financeiro de organizações como o PCC. Tais ações demonstram que é possível unir coordenação estratégica, inteligência policial e rastreamento financeiro para enfrentar facções. A criação de uma delegacia na Receita Federal para investigar crimes financeiros complexos também é destacada como avanço crucial.
Piquet observa uma mudança de estratégia: “O Brasil passou a abordar o crime organizado pelo prisma dos mercados, rastreando a produção e comercialização ilícita. É uma virada importante, mostrando que é possível descapitalizar grupos criminosos sem disparar um único tiro.”
Nívio Nascimento, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, ressalta que o novo modelo é promissor, mas ainda é necessário integrar órgãos de controle e padronizar o uso de dados para enfrentar de forma eficaz o crime organizado.
A CNI ainda cita avanços na agenda legislativa, como a PEC 18/2025, sobre segurança pública, e o PL 1482/2019, que tipifica crimes de furto e roubo de combustíveis. O fortalecimento de órgãos como Coaf e CVM é considerado essencial para garantir fiscalização efetiva e combate à ilegalidade.
Entre 2015 e 2024, comunicações de operações financeiras suspeitas ao Coaf aumentaram 766,6%, mas o órgão permaneceu com apenas 93 servidores, demonstrando deficiência estrutural. Segundo a CNI, “o combate ao Brasil ilegal exige mobilização e união de esforços públicos e privados, defendendo políticas estratégicas de Estado que protejam a economia, o emprego e a produção legítima.”

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